quinta-feira, 21 de maio de 2020

Americana - Don DeLillo

O ano passado fiz um curso de escrita criativa online através da Universidade de Wesleyan. Pelo menos dois dos Professores referiram várias vezes o nome de DeLillo, mas só agora tive vontade de pegar num livro dele. Comecei por Americana, o primeiro livro do autor, publicado em 1971.

It is so much simpler to bury reality than it is to dispose of dreams.

Aos vinte e oito anos, David Bell é a personificação do Sonho Americano - subiu até ao topo e tornou-se um Executivo da Televisão de renome. Mas o Sonho Americano roça o pesadelo e David deixa para trás a vida que conhece, no auge do seu sucesso, para redescobrir a realidade americana com a sua câmara em mãos. 

Too much has been forgotten in the name of memory.
 
Pensei que o livro tinha tudo para me apaixonar por ele, mas esta é mais uma leitura que me dividiu e deixou uma grande ambiguidade no meu coração de leitora. Já viram a série Mad Men? Adorei essa série e quando David Bell começa a narrar a sua história, lembrou-me um jovem Don Draper. 

We learn nothing from the stereotypes around us, not even that we're all the same.

Acompanhamos o dia a dia nos escritórios, a mobília de cada um dos executivos e o que isso diz sobre cada um e a posição que ocupa ali dentro, ouvimos as suas conversas sobre política e outros assuntos mais banais da vida americana, mas sempre com diálogos ricos.

There's less and less for people to talk to when they talk to me. I hope diminishing existence isn't contagious.

Se o início do livro me prometeu mundos e fundos, a meio comecei a perder o interesse. Detestei David Bell - nascido no seio de uma família privilegiada que cresce dentro da estação de televisão como uma estrela, mas está aborrecido. Infiel às muitas mulheres com quem se envolve, alcoólico, dado à bisbilhotice e até mesmo traiçoeiro, Bell é uma personagem detestável com a qual não consegui criar um vínculo que o tornasse no mínimo suportável. E a maior parte das personagens à sua volta parecem-se muito semelhantes a ele. 

That night, after the movie, driving my father's car along the country roads, I began to wonder how real the landscape truly was, and how much of a dream is a dream.

O livro desenrola-se num género de documentário fotográfico com flashbacks para a sua juventude e família disfuncional que nos dá alguma compreensão e bases para a formação da personalidade de Bell assim como na sua busca do pitoresco da vida americana para o elevar a uma evolução diferente de quem é.

I wanted to free myself from that montage of speed, guns, torture, rape, orgy and consumer packaging which constitutes the vision of sex in America.

Não desisto de DeLillo, apesar de não me ter conseguido conectar com David Bell. Há que lhe tirar o chapéu, DeLillo constrói frases e parágrafos de prosa poética. É uma escrita deliciosa e se eu me tivesse interessado pela história, este teria recebido cinco estrelas sem qualquer questão. Assim, fica aqui a promessa de que irei ler outra obra do autor porque há mesmo algo de especial na sua narrativa. 

The only problem I had was that my whole life was a lesson in the effect of echoes, that I was living in the third person.

Alguém já leu ou ouviu falar de Don DeLillo?

Podem adquirir o Americana e outras obras no site da Bertrand Livreiros ao clicarem aqui. Ao usarem o meu link, estão a apoiar o blog! 

Este recebeu três estrelas no Goodreads.

domingo, 17 de maio de 2020

O Traidor - Nelson DeMille&Alex DeMille

Tenho de agradecer à Editorial Presença e à Marcador pela oferta deste livro para leitura. A minha crítica sincera segue abaixo.

O Traidor é um livro escrito por Nelson DeMille e o filho Alex DeMille. É também o primeiro livro de Alex DeMille. Acredito que a escrita a dois é sempre um trabalho árduo, porque duas mentes criativas podem chocar muito, mas li o Good Omens do Neil Gaiman e do Terry Pratchett e achei que funcionou bem.

Dois anos depois do desaparecimento de Kyle Mercer, um capitão da Força Delta dos EUA no Afeganistão, é avistado em Caracas, na Venezeuela.  

As circunstâncias do seu desaparecimento são dúbias e não há certeza se terá sido raptado por talibãs antes ou depois de ter desertado. O seu reaparecimento na América do Sul causa suspeita e preocupação ao governo dos EUA.
Detentor de segredos de Estado, o reaparecimento de Mercer leva a que os EUA precisem de o capturar com urgência. Scott Brodie e Maggie Taylor, agentes da Divisão de Investigação Criminal são incumbidos de o levar de volta ao país para que possa ser interrogado e o seu desaparecimento devidamente investigado.

A guerra hoje em dia, pensou Brodie, tinha uma componente de relações públicas e propaganda equiparável à componente da guerra propriamente ditas. Os soldados americanos não se rendem. São capturados. E não batem em retirada. Reposicionam-se na retaguarda. E não desertam. Ausentam-se sem licença.

Este livro não foi uma leitura fácil e trouxe-me coisas boas e menos boas.Vivemos num mundo onde as notícias saem mais depressa do que oxigénio de árvores e todos os dias somos sufocados com novas informações. No meu caso, e acredito que seja o caso de muitas pessoas, metade da informação passa-me ao lado. O meu quotidiano no trabalho não me deixa tempo suficiente para aquilo que gosto de verdade e para aqueles de quem gosto, quanto mais para me dedicar à aquisição de nova informação. Este tempo de isolamento social trouxe-me essa percepção. Não vivemos, sobrevivemos. Seja onde for. E a vida passa.

A leitura de O Traidor deu-me a conhecer o conflito da Venezuela. Nomes como Simon Bolivar, Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Petare, MBR 200 e SEBIN  ganharam formato e maior consistência na minha mente quando antes eram só nomes que ouvia de vez em quando. O livro dá-nos algumas bases sobre esses nomes, mas no meu caso a minha curiosidade não ficou satisfeita e durante a leitura fiz várias pesquisas e vi bastantes documentários, para uma melhor compreensão do cenário. Acho que isso fez com que a minha leitura demorasse tanto tempo.

Conquistar "corações e espíritos" era um conceito da luta contra a insurreição, que tinha uma longa e nefasta história, mais recentemente utilizado pelos EUA no Vietname, e mais tarde, no Iraque e no Afeganistão. Os apelos "emotivos e intelectuais" das forças armadas norte-americanas à população-alvo, construindo estradas, escolas e hospitais e fazendo promessas de segurança, não passavam de bazófia e na prática eram geralmente puro suborno organizado.

A narrativa é de fácil leitura, sendo que os DeMille usam muito diálogo e as descrições são poucas e com algum detalhe. Considerei uma mistura de Dan Brown e James Patterson. Há fãs por aqui?

A paranoia era um exercício mental divertido. Até deixar de ser.

Fiquei de pé atrás com a leitura quando logo num dos primeiros capítulos, Brodie é chamado pelo seu chefe, Dombroski ao Clube dos Oficiais em Quântico e lhe dá uma achega para se manter atento a Taylor, pois há rumores de que a mesma se teria envolvido com um espião da CIA em tempos e que pode ser corrupta. Perdi logo ali a fé em Brodie,  porque não pareceu interessado em defender a parceira ou em pedir para lhe ser indicado um novo parceiro já que se tratava de uma missão tão perigosa. Para me deixar ainda mais apreensiva, nas primeiras 100 páginas, as interacções de Taylor são mínimas e sem conteúdo. Ao cúmulo de numa reunião entre Brodie, Taylor e um coronel, a única personagem feminina ser completamente esquecida e participar na conversa apenas no final para fazer uma pergunta banal e agradecer a reunião.

É o que a liberdade tem. Mostra o verdadeiro lado das pessoas.

Há uma cena mais à frente, num restaurante, estão os dois com uma terceira personagem, mas só Brodie participa com inputs sobre a missão e a única interacção de Taylor é dizer que a mulher que os está a servir é linda e que Brodie não retirou os olhos dela. A personagem perdeu qualquer credibilidade ali e eu fiquei extremamente desiludida. Uma mulher que está no Exército, que foi condecorada não é uma mulher que está interessada apenas em fazer comentários relativos a outras mulheres em que o parceiro possa ou não reparar.

Brodie é um homem convencido, armado em engraçado (faz piadas constantemente) e extremamente machista - a missão dele na Venezuela não é só capturar Mercer, mas (tal como várias vezes descrito no livro) saltar para a espinha de Taylor. Lamento, as personagens não me cativaram em nada.

Quando os amos ensinam a matar e dizem quem deve ser morto, esquecem-se de que os assassinos não devem lealdade a ninguém e não confiam em ninguém.

Foi o cenário, a descoberta da Venezuela que me fez ler o livro até ao fim. Fiquei curiosa em relação à situação vivida em Petare, apaixonei-me pelas paisagens de Kavak, Salto Ángel (não fazia ideia de que é a cascata mais alta do mundo), no Monte (Tepuy) Roraima ( que serviu de inspiração para a paisagem das Paradise Falls no filme da Pixar UP!).

O livro recebeu três estrelas. A escrita e as personagens não fazem o meu estilo, mas o livro fez-me querer compreender melhor a situação Venezuelana e isso também é importante numa leitura - que nos traga conhecimento e cultura. Se forem fãs do James Patterson, por exemplo e como já havia referido, acho que vão gostar.

Podem adquirir aqui:

Editorial Presença
Marcador Editora


Voltei a construir uma playlist para a leitura. Não fazia uma há algum tempo. Esforcei-me por usar apenas músicos Venezuelanos e há uma grande dose de rap. O rap é muito visual e violento, retrata bem a situação Venezuelana. Podem ouvir aqui.

Aconselho também a visualização deste pequeno documentário que vos dá um pouco de background caso queiram compreender melhor a situação vivida na Venezuela. São 28 minutos e já ficam com alguma ideia.

Boas Leituras!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ajax Penumbra 1969 - Robin Sloan

Há leituras que despertam a nossa curiosidade por um local novo e esta é uma delas. Ajax Penumbra 1969 é uma prequela da obra Mr. Penumbra's 24-Hour Bookstore (traduzido como A Livraria Noite e Dia do Senhor Penumbra e está à venda na Bertrand) que ainda não li, mas já está adicionada na lista infinita de leituras futuras. 

Of course, of course. Drugs, music, a new age dawning … and you came for an old book.

Em 1969 San Francisco é uma cidade em construção e Ajax é Aprendiz do Director de Aquisição da Biblioteca Galvanic College. Numa missão quase impossível, percorre a cidade em busca da última cópia do livro Techne Tycheon, um livro conhecido por trazer e fazer perder grandes fortunas a quem o possuiu. Avistado pela última vez em 1657, a única referência que Ajax tem para encontrar o livro é o nome de William Gray. 


Midway through, a fuzzy-chinned young man approaches the desk with a battered copy of Dune and a motley handful of coins. Mo waves him away. “Oh, just take it, Felix. Spend the money on a haircut.

Uma noite, Ajax encontra uma pequena livraria que está aberta 24 horas por dia e que pertence a
Mohammad Al-Asmari - Mo. Em poucos minutos de conversação, Ajax fica a saber que William Gray não é o nome de um homem e que a procura por Techne Tycheon poderá ser mais difícil do que estava à espera.

The measure of a bookstore is not its receipts, but its friends,” he says, “and here, we are rich indeed.

Robin Sloan descreve o ambiente de San Franscisco e a grande livraria com uma facilidade que submerge o leitor naquele mundo. É uma leitura rápida - hora e meia e que abre o apetite para descobrir mais a escrita de Sloan, que é deliciosa. Fiquei com muita curiosidade em ler a A Livraria Noite e Dia do Senhor Penumbra (aparentemente a capa brilha no escuro, o que é um detalhe curioso e que me deixa ainda mais interessada em possuir o livro físico). Escusado será dizer que cada vez mais quero visitar San Francisco.

Recebeu Quatro Estrelas no Goodreads.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

My Dark Vanessa - Kate Elizabeth Russell

Pouco depois de ser lançado, este livro invadiu o meu feed do Instagram onde sigo maioritariamente contas relacionadas com livros. A capa cativou-me e o título também. A sinopse deixou-me apreensiva, mas as críticas eram tão boas que decidi ouvir o audiobook. 

It’s strange to know that whenever I remember myself at fifteen, I’ll think of this.

Aos quinze anos, Vanessa envolve-se com o seu professor de Inglês, Jacob Strane, na altura com quarenta e dois anos. Para proteger Strane de um escândalo e crente de que a relação entre ambos assenta na ideia romantizada que o livro Lolita de Nabokov lhe incutiu, Vanessa é expulsa da escola por ser acusada de ser instável e perseguir o professor. 

Kneeling before me, he lays his head on my lap and says, ‘I’m going to ruin you.

Os encontros continuam em segredo, mesmo depois de Vanessa atingir a maioridade. Sete anos depois do primeiro beijo com Strane, o professor é acusado publicamente de abuso sexual. Vanessa é contactada para também ela contar a sua história.

Girls in those stories are always victims, and I am not. And it doesn’t have anything to do with what Strane did or didn’t do to me when I was younger. I’m not a victim because I never wanted to be, and If I didn’t want to be, then I’m not. That’s how it works. The difference between rape and sex is state of mind. You can’t rape the willing, right?

A narrativa alterna entre 2000 e 2007 e Vanessa vagueia pelas memórias do desenrolar da relação com Strane e o desabar da crença de que viveu uma história de amor.

Because even if I sometimes use the word abuse to describe certain things that were done to me, in someone else’s mouth the word turns ugly and absolute. It swallows up everything that happened.

A linguagem do livro é acessível e Kate Elizabeth Russell facilita a leitura recorrendo a descrições leves e diálogos interessantes. Achei que alguns pontos ficaram por abordar e algumas personagens por explorar, mas num todo é um livro que nos faz entender melhor o pensamento de alguém que sofre de Síndrome de Estocolmo pois Vanessa acaba por ser refém da ideia de que ela e Strane viveram um amor ímpar que o mundo é incapaz de compreender. 

I can’t lose the thing I’ve held onto for so long, you know?” My face twists up from the pain of pushing it out. “I just really need it to be a love story, you know? I really, really need it to be that.”
“I know,” she says.
“Because if it isn’t a love story, then what is it”? I look to her glassy eyes, her face of wide open empathy. “It’s my life,” I say. “This has been my whole life.

Recebeu quatro estrelas no Goodreads.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Misery - Stephen King

No décimo segundo ano, um professor de Técnicas de Tradução de Inglês passou uma pequena parte do filme Misery numa aula, para fazermos um exercício de escrita do qual já não me recordo. Na altura, tentei esquecer a visualização porque não gosto de ver filmes antes de ler os livros. Stephen King foi arrumado num canto da minha mente a aguardar que estivesse pronta para agarrar no livro.

Sou uma mariquinhas no que toca à leitura de livros relacionados com forças sobrenaturais, não tenho problema nenhum em admitir. O que me chamou à atenção em Misery é o facto de se tratar de uma história simples em que não tenho de me preocupar com a aparição de nenhum poltergeist (vá, o Peeves do Harry Potter não conta!).

Misery conta a história de Paul Sheldon, famoso escritor de uma saga de romance/aventura e que decide matar a personagem principal - Misery Chastain. Antes de publicar o livro, Paul tem um acidente de carro durante uma tempestade de neve no meio do Colorado onde as suas pernas são esmagadas, mas é salvo por Annie Wilkes uma mulher cheia de força, enfermeira e a sua fã número um. Quando Annie descobre que Misery morre no último livro da saga, revela-se como uma mulher atormentada que irá dificultar a recuperação de Paul até que ele reescreva o livro.



I am in trouble here. This woman is not right.


Quantos de nós não quisemos já poder entrar na mente nos nossos escritores favoritos, tê-los por perto, observar o processo criativo e mandar bitaites sobre o rumo que uma história deve tomar, principalmente se a mesma for uma saga? (Confissão preocupante do dia?)

In a book, all would have gone according to plan... but life was so fucking untidy — what could you say for an existence where some of the most crucial conversations of your life took place when you needed to take a shit, or something? An existence where there weren't even any chapters?

A escrita de Stephen King é avassaladora, de visualização precisa e agarrou-me à história com tremenda facilidade. Com os pensamentos altos de Paul Sheldon a interromperem o narrador, a agonia e o medo andam de mãos dadas ao longo da narrativa e é difícil não sentir arrepios nos momentos mais intensos. Não é isso que procuramos numa história? Sentir o mesmo que os personagens que seguimos?

Writers remember everything...especially the hurts. Strip a writer to the buff, point to the scars, and he'll tell you the story of each small one. From the big ones you get novels. A little talent is a nice thing to have if you want to be a writer, but the only real requirement is the ability to remember the story of every scar.
Art consists of the persistence of memory.

 Foi a minha primeira leitura que fiz deste autor que recebeu 5 estrelas no Goodreads e que me deixou sedenta por mais. E se me confessei mariquinhas uns parágrafos acima, confesso também que um dos audiobooks adquiridos nos últimos tempos foi Carrie. Não sei se o conseguirei levar até ao fim, mas li tão bons comentários que estou disposta a enfrentar os meus medos e dar uma oportunidade a esta faceta de King.

He had discovered that there was not just one God but many, and some were more than cruel — they were insane, and that changed all. Cruelty, after all, was understandable. With insanity, however, there was no arguing.

Já leram Misery ou outro livro de King? Querem deixar alguma dica de próximas leituras?

sábado, 25 de abril de 2020

Memórias de um Gato Viajante - Hiro Arikawa

Olá mundo, ainda aqui estou!

Andei desaparecida por uns tempos, mas 2019 foi um ano de muito trabalho e viagens. Gostava de ter partilhado convosco os livros lidos por vário locais que passei (Itália, Áustria, Espanha, Açores, Holanda e, em 2020, a Grécia - antes do Covid-19 chegar à Europa.), mas tornou-se difícil conciliar trabalho, viagens, Instagram, vida pessoal o que obrigou a que o blog ficasse para trás.

Espero que nesta altura de confinamento que é tão complicada para todos nós, estejam em casa e a aproveitar os livrinhos que têm ficado esquecidos nas pilhas de leitura que os bookworms são conhecidos por criar!

Tive a sorte de a Editorial Presença me enviar o Memórias de um Gato Viajante pela altura do Natal que eu devorei de imediato, mas só agora vos venho falar dele. Desculpem!

O ser humano é uma criatura demasiado arrogante para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar erecto.

Depois de deixar as ruas e ser adoptado por Satoru Miyawaki, Nana anda em viagem pelo Japão. Sentado no banco da frente da carrinha de Satoru como gente grande, este gato cheio de personalidade não sabe o destino do passeio, mas em cada paragem que fazem, trava amizade com amigos da juventude do dono, conhece os seus animais de estimação e vê o
mar pela primeira vez!

Eu que não deixei nada a desejar como companheiro de casa, certamente não deixarei nada a desejar como companheiro de viagem.

Numa escrita simples, Arikawa pinta a paisagem japonesa em leves pinceladas e aborda temas como o valor da amizade, o amor, a solidão, o medo e a morte e relembra-nos que viajar permite-nos conhecer melhor aqueles que nos rodeiam e também a nós próprios. 
Se nós gatos conseguimos ver fantasmas? Bem, os senhores sabem que sobre certas coisas é melhor manter o mistério.

Fã que sou dos Estúdios Ghibli, o livro desenrolou-se na minha mente com contornos de anime e gostava muito de vê-
lo passar para o grande ecrã, porque é uma história comovente e cheia de ternura que o mundo precisa de conhecer. Os amantes de animais vão adorar e até pessoas alérgicas a gatos como eu, vão desejar ter um.

Vamos partir para a próxima jornada, relembrando todas as memórias que colhemos na nossa viagem.
Pensando em quem partiu antes de nós e em quem virá depois. 
E, quem sabe, encontraremos, para além do horizonte, todas as pessoas queridas.

Recebeu quatro estrelas no Goodreads e podem comprar aqui!

Boas leituras!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Breakfast at Tiffany's - Truman Capote

Não foi a primeira leitura de 2019, mas foi a primeira leitura do ano a receber cinco estrelas no Goodreads, daí que seja aquela que quero destacar dentro deste mês de Janeiro. Até porque para este ano desejo explorar no blog a Literatura de 5 estrelas, aquela cuja escrita me arrepia e a história me prende.

Leave it to me: I'm always top banana in the shock department.

Nunca vi o filme, apesar da imagem icónica de Audrey Hepburn ter sido imortalizada no mesmo. Está na lista de filmes a ver, apesar de já ter espreitado o trailer e ter ficado com a impressão de que a história acaba por fugir do original e ser romantizada, Hollywood Style.

It should take you about four seconds to walk from here to the door. I'll give you two.

Holiday "Holly" Golightly é uma pérola da sociedade nova iorquina dos anos 40 - bonita, confiante, sedutora mas também um pouco ingénua no seu desejo de ser actriz, por debaixo dos óculos de sol com lentes de leitura e com os dedos prontos a percorrerem os trastes da guitarra por umas horas, à janela, acompanhada de um gato sem nome. 

Reading dreams. That's what started her walking down the road. Every day she'd walk a little further: a mile, and come home. Two miles, and come home. One day she just kept on.

Capote pinta um retrato real de uma mulher que pode ter tudo o que deseja mas que o receio de ser encurralada numa vida de arrependimento a impede de seguir em frente e, por isso mesmo, anda às voltas pela vida, jantando com um homem esta noite, dormindo com outro na outra, sempre sem as chaves de casa e de cigarro pronto a ser aceso por entre galanteios num francês arranhado.  

I'm very scared, Buster. Yes, at last. Because it could go on forever. Not knowing what's yours until you've thrown it away.

Truman Capote é um homem de poucas palavras, mas com um requinte brilhante no uso das mesmas e sem dúvida que irei pegar em mais livros do autor. Enquanto lia a aventura de "Fred" e Holly, fui levada para uma atmosfera onde respirei as memórias de outras leituras favoritas - The Great Gatsby com ténues pinceladas de On the Road. Vá-se lá perceber os átomos que unem cérebros literários.

I don't mean I'd mind being rich and famous. That's very much on my schedule, and someday I'll try to get around to it; but if it happens, I'd like to have my ego tagging along. I want to still be me when I wake up one fine morning and have breakfast at Tiffany's.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Woman in the Window - A. J. Finn

I think of Dr. Brulov in Spellbound: “My dear girl, you cannot keep bumping your head against reality and saying it is not there.

A ex-psicóloga infantil Anna Fox vive sozinha em Nova Iorque, tendo como única companhia permanente um gato chamado Punch. Cada dia que passa, Anna sobrevive todos os dias com a ajuda de alguns comprimidos engolidos por copos de vinho à sua grande inimiga de há um ano: agorafobia.Com tanto tempo livre passado em casa, Anna distrai-se contribuindo para um Fórum de apoio para Agorafóbicos, joga xadrez online, vê thrillers a preto e branco e observa os vizinhos através das janelas com a sua câmara.

Watching is like nature photography: You don’t interfere with the wildlife. 

Algum tempo após a chegada dos Russell, Anna vê algo pela janela que não era suposto ver, mas será que Anna pode confiar naquilo que viu? E como fazer com que aqueles que a rodeiam confiem em alguém que se auto-medica e consome alcool como se de água se tratasse?

You can hear someone’s secrets and their fears and their wants, but remember that these exist alongside other people’s secrets and fears, people living in the same room. 

Esta é uma leitura para os fãs de The Girl on the Train e The Couple Next Door. A nossa protaonista é uma mulher com um passado dificil e cuja a percepção da realidade está visivelmente alterada devido à doença e ao alcoolismo de Anna. 

A escrita de Finn é simples e fluída, com capítulos pequenos e referências a grandes obras do cinema a preto e branco que se vão infiltrando na realidade de Anna e que nos confundem tanto quanto a ela. 

The Woman in the Window recebeu quatro estrelas no Goodreads. 

E a Playlist está disponível aqui.

domingo, 18 de novembro de 2018

One of Us is Lying - Karen M. McManus

Às vezes culpo-me por querer acreditar que um dia vou pegar num livro YA e que vou dizer: Uau! É mesmo bom! One of Us is Lying junta-se à minha lista de literatura YA que é boa para passar o tempo mas não mais do que isso.

Cinco adolescentes vão parar a uma sala de castigo após os professores lhes retirarem telemóveis das malas que tocam a meio das aulas, mas não lhes pertencem. Cooper, o melhor jogador de basebol da escola; Addy, a candidata a Rainha do Baile; Bronwyn, a melhor aluna da escola e que tenciona entrar em Yale; Nate, o rufia que vende droga e que se encontra em liberdade condicional (I mean, what?); e Simon, criador de uma APP que funciona ao estilo do site de Gossip Girl: todos os segredos mais negros dos alunos de Bayview High vão lá parar. 

 She's a princess and you're a jock," he says. He thrusts his chin toward Bronwyn, then at Nate. "And you're a brain. And you're a criminal. You're all walking teen-movie stereotypes.

Contudo, a meio dessa sessão de estudo, Simon morre e todos os presentes têm segredos que estavam prestes a ser publicados na APP de Simon. 


Some people are too toxic to live. They just are.

Começa uma investigação criminal por parte das autoridades e este pequeno grupo e os seus segredos vão sendo expostos ao público escolar, familiar até chegar às telas nacionais. Escusado será dizer que, apesar de tão diferentes, o facto de estarem possivelmente envolvidos na morte de Simon faz com que se aproximem e formem laços que antes eram impensáveis. 

These murder club meetings are becoming a regular thing. We need a new name, though.
 
Como todos os livros YA, há claro algum romance envolvido à mistura. Porém, o que faltou nesta história, foi o factor mistério e o suspense que qualquer bom thriller requer. Além disso, o final deixou um pouco a desejar e, apesar de eu não ser cem por cento a favor da regra "Kill your darlings", acredito que neste caso teria sido ideal aplicá-la e talvez o livro não tivesse contado com umas meras três estrelas da minha parte. 

Já leram? Digam de vossa justiça!

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Series Of Unfortunate Events: The Hostile Hospital - Lemony Snicket

 

Acusados do homicídio de Conde Olaf (Jaques Snicket), os Baudelaire são obrigados a fugir da aldeia V.F.D. e caminham pelo deserto até encontrarem a Last Chance General Store de onde enviam um telegrama ao Senhor Poe. Também aqui, apanham boleia com um grupo intitulado de V.F.D. - Volunteers Fighting Desease - até ao Heimlich Hospital. No Hospital conhecem Hal, com quem trabalham na Biblioteca de Arquivos onde ganham acesso à 13ªpágina do Ficheiro Snicket que lhes trás uma brecha de esperança ao lerem: Due to the evidence discussed on page 9, experts now suspect that there may in fact be one survivor of the fire, but the survivor's whereabouts are unknown. 


Uma vez mais, Olaf e a sua trupe surge para os capturar e os irmão vêem-se de novo em apuros, obrigados a usarem as suas capacidades de maneira a escaparem das garras de Olaf. Verificamos um crescimento das crianças a nível comportamental, que os leva a tomarem decisões que os aproximam dos adultos como mentir por uma boa causa, algo que antes não fariam com facilidade.
 São feitas algumas alusões a personalidades e personagens literárias, especialmente através das listas de nomes dos pacientes do Hospital.  

Infelizmente, este voltou a ser cotado com três estrelas no Goodreads por achar que a acção não se desenvolveu tão depressa quando poderia. Ainda assim, continuo a aconselhar a saga para miúdos e graúdos.


terça-feira, 13 de novembro de 2018

A Series Of Unfortunate Events: The Vile Village - Lemony Snicket








 Em busca dos amigos Quagmire, os Baudelaire são adoptados pela Village of Fowl Devotees (V.F.D.), crentes de que aqui vão encontrar respostas sobre a organização secreta com as mesmas siglas.

Numa zona remota e deserta do país, esta caricata vila foi fundada por um grupo de devotos de Corvos, pelo que existe a Árvore Nevermore, onde os mesmos habitam e dormem todas as noites. As referências a Poe são inúmeras ao longo da série, como já se devem ter apercebido. 

Em V.F.D., os Baudelaires são obrigados a fazer as mais variadas tarefas para os anciãos da aldeia. Vivem sob a alçada de um homem chamado Hector que cozinha enchiladas deliciosas e que construiu uma casa voadora, algo que é proíbido pelas leis de V.F.D. 

O Conde Olaf e a Esmé Squalor regressam para aterrorizar as crianças e para condenarem à morte uma personagem que ficamos a saber ser o irmão de Lemony Snicket, Jaques. 

Entretanto, todas as noites, os corvos voam para a árvore Nevermore e os irmãos recebem pistas de onde se encontram os Quagmire.



For sapphires we are held in here.
Only you can end our fear.
Until dawn comes we cannot speak.
No words can come from this sad beak.
The first thing you read contains the clue.
An initial way to speak to you.
Inside these letters the eye will see.
Nearby are your friends and V.F.D.

 Esta leitura mereceu três estrelas no Goodreads, apesar da escrita de Handler continuar a ser uma delícia, a acção da história é um pouco parada e até "mais do mesmo."